Tipo uma alegoria, de mau gosto e um bocado sexista, é verdade...
Dedicado a todos os que não percebem por que razão é que os professores não se aquietam, depois de o Ministério da Educação já ter cedido (atenção que está em itálico, estou, neste momento, a piscar muito o olho, ok?). Dedicado a todos os professores que se têm calado de cada vez que levam um empurrão.
Era uma vez um homem que tinha um patrão. Um dia, o patrão resolveu começar a ignorar as leis laborais ou, pelo menos, as do bom senso. Começou por impor que passaria a dar ao empregado – conhecido anteriormente por "um homem que tinha um patrão" – um empurrão por dia. Não é que o empregado tenha gostado da ideia, esboçou um protesto, mas pensou "Um empurrão não é grave, pronto!". Havia dias em que o empregado até chegava a achar graça e lá ia produzindo o que tinha a produzir.No mês seguinte, o patrão pensou, pensou, pensou e decidiu acrescentar ao empurrão um beliscão igualmente diário. O empregado voltou a não achar graça, chegou mesmo a dizer que isso até podia afectar a produtividade. O problema é que patrão é patrão e não convém dizer que não. Assim, o empregado lá foi aguentando. Teve alguns problemas em casa para explicar à mulher a origem daquela marca de beliscão e só não acrescentamos um divórcio à história porque não interessa à alegoria propriamente dita.
Passado mais um mês, o patrão, depois de muito matutar, decidiu que devia acrescentar ao empurrão e ao beliscão uma cotovelada no diafragma. Aí, o empregado começou a levantar a voz, até porque uma cotovelada já é uma dor significativa e no diafragma chega mesmo a dificultar a respiração, podendo ser mais um factor de baixa de produtividade. Nada demoveu o patrão. "Era o que faltava!", dizia ele, cofiando o longo bigode dos patrões das alegorias, "Daqui a bocado, isto era uma democracia a sério em que andávamos a ouvir a opinião dos trabalhadores!"
Um mês depois, o patrão, tendo cogitado mais um bocado, decidiu que era tempo de começar a incluir no rol dos "incentivos", como lhes chamava sem se rir, a bofetada. O empregado continuou a trabalhar, mas, estranhamente, já não sentia o mesmo prazer e chegou a queixar-se a alguns amigos de outras empresas. O problema era que, nas outras empresas, alguns patrões já há muito que tinham passado a fase da bofetada e alguns já iam na serra eléctrica ou no picador de gelo. Por isso, alguns amigos diziam ao empregado: "Tens é muita sorte, não sabes o que é bom! Havias de ter um picador de gelo nas costas todos os dias para veres como uma bofetada é uma coisa maravilhosa! Quem me dera a mim levar bofetadas de hora a hora!"
Quando chegou o dia em que o patrão determinou que o empregado também ia passar a levar um pontapé nos testículos, foi uma gritaria lá na empresa e o empregado nunca mais parou de reivindicar, aproveitando os sábados para marchar em protesto contra o empurrão, o beliscão, a cotovelada no diafragma, a bofetada e o pontapé nos testículos. Para além disso, deu-lhe para fazer greve.
O patrão começou a ficar preocupado com a reacção do empregado e até chegou a pedir-lhe desculpa, mas, como muitos patrões de tantas alegorias, pensava que, por um lado, não podia voltar atrás, embora, por outro, estivesse com um bocado de medo de perder o controlo da situação. Foi então que, pondo o ar magnânimo e paciente de todos os patrões, se lembrou de propor o seguinte: não havia mais empurrão nem beliscão durante um ano e não se falava mais nisso. Fez esta proposta de maneira a que toda a gente na aldeia pudesse ouvir.
Mas não é que o empregado nem assim se aquietou nos seus protestos? Os amigos falavam com ele e não percebiam por que razão o nosso herói continuava tão abespinhado, se o patrão já tinha cedido tanto. Alguns chegaram mesmo a dizer-lhe que ele não queria era trabalhar, que era um malandro, um privilegiado sem vergonha. Foi aí que o empregado se apercebeu da verdadeira importância de ter testículos e nunca mais se calou.
Fernando Nabais
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sábado, 24 de janeiro de 2009
terça-feira, 30 de setembro de 2008
Professores ou Bruxos?
Por ordens ministeriais, todos os docentes deviam entregar, até ao dia 30 de Setembro, os objectivos individuais para este ano lectivo. Há escolas que adiaram o prazo por um mês, pois têm noção de que isso é impossível. Na grelha de objectivos individuais aprovada na minha escola, os professores têm de escrever a percentagem de níveis dois, três, quatro e cinco que se propõem dar no final do ano lectivo em cada turma! Se não cumprirem esses objectivos, terão de mudar de profissão.
Como é óbvio, eu, que não sou bruxo, terei de propor uma percentagem que seja aceite pelos meus avaliadores e que seja sempre inferior à do ano anterior. Os (des)iluminados tecnocratas que têm estas ideias nunca assistiram a uma aula de Psicologia do Desenvolvimento? Como é possível tratar crianças como objectos quantificáveis? Como é possível um professor que esteve em duas aulas com uma turma saber a percentagem de níveis cinco, quatro e três que atribuirá no final do ano? (Já não falo em dois, porque estamos proibidos de dar…) Eu sei que se pretende ensinar aos alunos que a vida é injusta, mas podíamos evitar que a avaliação também o fosse.
Eu já disse aos meus colegas que, se fosse bruxo, jogaria no Euromilhões e não perdia tempo a adivinhar os níveis que os alunos teriam no final do ano… Isto é uma palhaçada tão grande: mascarar o insucesso, obrigando os professores a melhorarem os resultados todos os anos até todos os alunos terem nível cinco a todas as disciplinas. Por favor, não me obriguem a ser mentiroso, só porque está na moda!
O verdadeiro sucesso que há na escola é o de professores que não sabem em que dia da semana estão e que se aguentam acordados durante o dia à base de cafés, porque não dormiram a corrigir testes de avaliação diagnóstica e a prepararem aulas, a imaginarem o sucesso dos seus alunos no final do terceiro período, a deitar contas à vida, porque o dinheiro que ganham não dá para pagar a renda, o combustível, as portagens, os tinteiros da impressora. Outros professores andam tão obcecados com o poder que lhes deram de “assassinar” a carreira de colegas que inventam matrizes de testes, estratégias diferenciadas, planos de aula, grelhas e gráficos… para poderem dizer: “-Vês, não podes ter Bom porque não fizeste isto ou aquilo! Até dás aulas muito interessantes, mas não deste a devida atenção ao rapaz que está na terceira fila, constantemente a olhar pela janela! Muda de vida!”
Há quem diga que os professores insatisfeitos deviam mudar de profissão! Quem investiu anos da sua formação para fazer aquilo de que gostava, não deve mudar. A senhora ministra, que não percebe nada de pedagogia, não tem um discurso coerente nem entende o que se passa nas escolas, irá brevemente embora. Até o senhor Primeiro-Ministro que não frequentava as aulas e só falou verdade uma vez na vida, quando disse que o seu objectivo era o de tornar os portugueses mais pobres, também irá embora e um dia chegará ao poder alguém que se preocupe com o que os alunos aprendem e não com as estatísticas, porque os ministros passam, os estatutos mudam, mas os professores continuam…
É uma pena a comunicação social só ir à escola, quando lá vão os governantes e tudo parece muito bonito para português ver na televisão. Os jornalistas deviam escolher uma escola e fazer uma reportagem, ouvindo o que professores, alunos e auxiliares têm para dizer.
Vendem-se ou dão-se aos alunos computadores com contratos de longa duração de 1 giga de downloads o que é ridículo e que será gasto durante um dia pelos alunos, se estiverem ligados ao “msn”, depois cobram a preços elevadíssimos a utilização durante os outros 29. Isto é um “negócio da China” para as operadoras e para a propaganda do governo, que para todos os efeitos “deu” o computador! Mas livrem-se de terem o azar do computador ou da placa avariarem, nem imaginam o que vão gastar em portes postais e os aborrecimentos que terão!
A senhora Ministra tinha prometido que haveria projectores e computadores em todas as salas, no início deste ano lectivo. Na minha escola, quem quiser utilizar as novas tecnologias tem de comprar computadores, impressoras, tinteiros e projectores! Ela quer a excelência, mas trata-nos como escravos que ainda pagam para trabalhar.
Já nem vou escrever sobre a entrega da gestão do parque escolar a uma câmara que eu conheço, que abandonou completamente as escolas do 1º ciclo com computadores com cerca de dez anos que já não funcionam e que obriga os pais a mandarem papel higiénico e detergentes para a escola. Antes da atribuição de mais competências, o governo devia ter verificado como essa câmara em concreto tinha gerido as escolas do 1º ciclo até ao momento.
O Senhor Primeiro-Ministro tem mais jeito para vender computadores do que para governar o país, no entanto anda a festejar, porque piorou a vida dos portugueses, aumentando os impostos, a idade da reforma, criando portagens nas SCUT (só da região do Porto) e congelando as carreiras. Já não falo na subida das taxas de juro, pois acho que a culpa não é só sua! A mudança que operou no país foi para pior!
salvarescola@gmail.com
Como é óbvio, eu, que não sou bruxo, terei de propor uma percentagem que seja aceite pelos meus avaliadores e que seja sempre inferior à do ano anterior. Os (des)iluminados tecnocratas que têm estas ideias nunca assistiram a uma aula de Psicologia do Desenvolvimento? Como é possível tratar crianças como objectos quantificáveis? Como é possível um professor que esteve em duas aulas com uma turma saber a percentagem de níveis cinco, quatro e três que atribuirá no final do ano? (Já não falo em dois, porque estamos proibidos de dar…) Eu sei que se pretende ensinar aos alunos que a vida é injusta, mas podíamos evitar que a avaliação também o fosse.
Eu já disse aos meus colegas que, se fosse bruxo, jogaria no Euromilhões e não perdia tempo a adivinhar os níveis que os alunos teriam no final do ano… Isto é uma palhaçada tão grande: mascarar o insucesso, obrigando os professores a melhorarem os resultados todos os anos até todos os alunos terem nível cinco a todas as disciplinas. Por favor, não me obriguem a ser mentiroso, só porque está na moda!
O verdadeiro sucesso que há na escola é o de professores que não sabem em que dia da semana estão e que se aguentam acordados durante o dia à base de cafés, porque não dormiram a corrigir testes de avaliação diagnóstica e a prepararem aulas, a imaginarem o sucesso dos seus alunos no final do terceiro período, a deitar contas à vida, porque o dinheiro que ganham não dá para pagar a renda, o combustível, as portagens, os tinteiros da impressora. Outros professores andam tão obcecados com o poder que lhes deram de “assassinar” a carreira de colegas que inventam matrizes de testes, estratégias diferenciadas, planos de aula, grelhas e gráficos… para poderem dizer: “-Vês, não podes ter Bom porque não fizeste isto ou aquilo! Até dás aulas muito interessantes, mas não deste a devida atenção ao rapaz que está na terceira fila, constantemente a olhar pela janela! Muda de vida!”
Há quem diga que os professores insatisfeitos deviam mudar de profissão! Quem investiu anos da sua formação para fazer aquilo de que gostava, não deve mudar. A senhora ministra, que não percebe nada de pedagogia, não tem um discurso coerente nem entende o que se passa nas escolas, irá brevemente embora. Até o senhor Primeiro-Ministro que não frequentava as aulas e só falou verdade uma vez na vida, quando disse que o seu objectivo era o de tornar os portugueses mais pobres, também irá embora e um dia chegará ao poder alguém que se preocupe com o que os alunos aprendem e não com as estatísticas, porque os ministros passam, os estatutos mudam, mas os professores continuam…
É uma pena a comunicação social só ir à escola, quando lá vão os governantes e tudo parece muito bonito para português ver na televisão. Os jornalistas deviam escolher uma escola e fazer uma reportagem, ouvindo o que professores, alunos e auxiliares têm para dizer.
Vendem-se ou dão-se aos alunos computadores com contratos de longa duração de 1 giga de downloads o que é ridículo e que será gasto durante um dia pelos alunos, se estiverem ligados ao “msn”, depois cobram a preços elevadíssimos a utilização durante os outros 29. Isto é um “negócio da China” para as operadoras e para a propaganda do governo, que para todos os efeitos “deu” o computador! Mas livrem-se de terem o azar do computador ou da placa avariarem, nem imaginam o que vão gastar em portes postais e os aborrecimentos que terão!
A senhora Ministra tinha prometido que haveria projectores e computadores em todas as salas, no início deste ano lectivo. Na minha escola, quem quiser utilizar as novas tecnologias tem de comprar computadores, impressoras, tinteiros e projectores! Ela quer a excelência, mas trata-nos como escravos que ainda pagam para trabalhar.
Já nem vou escrever sobre a entrega da gestão do parque escolar a uma câmara que eu conheço, que abandonou completamente as escolas do 1º ciclo com computadores com cerca de dez anos que já não funcionam e que obriga os pais a mandarem papel higiénico e detergentes para a escola. Antes da atribuição de mais competências, o governo devia ter verificado como essa câmara em concreto tinha gerido as escolas do 1º ciclo até ao momento.
O Senhor Primeiro-Ministro tem mais jeito para vender computadores do que para governar o país, no entanto anda a festejar, porque piorou a vida dos portugueses, aumentando os impostos, a idade da reforma, criando portagens nas SCUT (só da região do Porto) e congelando as carreiras. Já não falo na subida das taxas de juro, pois acho que a culpa não é só sua! A mudança que operou no país foi para pior!
salvarescola@gmail.com
quinta-feira, 3 de abril de 2008
Barcos à deriva
O Ministério da Educação, obcecado com o sucesso fictício dos resultados dos alunos, para o qual a avaliação do desempenho dos professores e o novo estatuto do aluno são dois instrumentos, esqueceu-se de resolver os problemas da escola.
Como eu sou coordenador do grupo disciplinar de Língua Portuguesa da minha escola, alguns colegas perguntaram-me como iríamos ensinar os alunos a escrever depois da assinatura do novo acordo ortográfico: passávamos a seguir o novo ou ensinávamos como até aqui? Se estamos a preparar alunos para o futuro, fará sentido continuar a utilizar a ortografia antiga?
Os manuais de Língua Portuguesa estão desactualizadíssimos, porque a adopção de novos manuais está suspensa há alguns anos, devido ao disparate que foi a TLEBS (Terminologia Linguística dos Ensinos Básico e Secundário), imposta em todo o país sem discussão e suspensa por ser tão confusa e ambígua como o novo modelo de avaliação dos professores. Na minha opinião, os erros da TLEBS deveram-se à tentativa de copiar e adaptar à Língua Portuguesa as gramáticas das línguas germânicas, esquecendo ou querendo apagar as nossas raízes latinas. Assim, no 7.º ano os alunos têm um manual de Língua Portuguesa com a nova terminologia linguística, mas esses alunos, quando chegam ao 8.º e ao 9.º, têm manuais com a antiga terminologia.
Em relação ao novo acordo ortográfico, ainda não chegaram instruções aos professores, por isso cada um vai ensinar conforme a sua consciência o indicar. O problema vai reflectir-se nos exames ou talvez não: os professores correctores vão receber indicações do GAVE para aceitarem as duas ortografias, tal como o fazem actualmente para as duas terminologias.
O Ministério não sabe que indicações dar. As decisões estão a ser tomadas em cima do joelho e corrigidas no dia seguinte. Todos os dias chega legislação às escolas que contraria a do dia anterior. Ora é necessário rever o Regulamento Interno à pressa, ora temos até ao final do ano; ora há avaliação para todos, ora não há; ora temos de definir objectivos individuais para este ano, ora será só para o ano. Mas o que é isto, meus senhores? Que barco é este que tem um destino, mas ninguém sabe como lá chegar? Até há pessoas que nada entendem do que se passa actualmente no mar das escolas que já querem dar sugestões de como comandar as embarcações (turmas) superlotadas. Nós queremos ensinar e conduzir o barco a bom porto, mas há uma tempestade de ventos contrários lançados pela comandante da armada que leva cada um para seu lado. Não tenho dúvidas de que todos naufragaremos numa sociedade sem valores, sem assiduidade, sem respeito e sem produtividade.
Vou dar um exemplo muito simples para que todos (mesmo a ministra) o entendam: se um dia eu chegasse a uma sala de aula e dissesse que "Maria" era um nome próprio; no dia seguinte, um adjectivo, depois, um verbo e, no final, reafirmasse que era um nome próprio, acham que algum aluno confiaria em mim?
Podemos também nós confiar neste Ministério e no que ele está a fazer ao nosso país?
Se confiam nesta ministra para gerir a educação dos vossos filhos, têm de confiar muito mais nos professores, que, apesar de não serem perfeitos, cometem menos erros.
Como eu sou coordenador do grupo disciplinar de Língua Portuguesa da minha escola, alguns colegas perguntaram-me como iríamos ensinar os alunos a escrever depois da assinatura do novo acordo ortográfico: passávamos a seguir o novo ou ensinávamos como até aqui? Se estamos a preparar alunos para o futuro, fará sentido continuar a utilizar a ortografia antiga?
Os manuais de Língua Portuguesa estão desactualizadíssimos, porque a adopção de novos manuais está suspensa há alguns anos, devido ao disparate que foi a TLEBS (Terminologia Linguística dos Ensinos Básico e Secundário), imposta em todo o país sem discussão e suspensa por ser tão confusa e ambígua como o novo modelo de avaliação dos professores. Na minha opinião, os erros da TLEBS deveram-se à tentativa de copiar e adaptar à Língua Portuguesa as gramáticas das línguas germânicas, esquecendo ou querendo apagar as nossas raízes latinas. Assim, no 7.º ano os alunos têm um manual de Língua Portuguesa com a nova terminologia linguística, mas esses alunos, quando chegam ao 8.º e ao 9.º, têm manuais com a antiga terminologia.
Em relação ao novo acordo ortográfico, ainda não chegaram instruções aos professores, por isso cada um vai ensinar conforme a sua consciência o indicar. O problema vai reflectir-se nos exames ou talvez não: os professores correctores vão receber indicações do GAVE para aceitarem as duas ortografias, tal como o fazem actualmente para as duas terminologias.
O Ministério não sabe que indicações dar. As decisões estão a ser tomadas em cima do joelho e corrigidas no dia seguinte. Todos os dias chega legislação às escolas que contraria a do dia anterior. Ora é necessário rever o Regulamento Interno à pressa, ora temos até ao final do ano; ora há avaliação para todos, ora não há; ora temos de definir objectivos individuais para este ano, ora será só para o ano. Mas o que é isto, meus senhores? Que barco é este que tem um destino, mas ninguém sabe como lá chegar? Até há pessoas que nada entendem do que se passa actualmente no mar das escolas que já querem dar sugestões de como comandar as embarcações (turmas) superlotadas. Nós queremos ensinar e conduzir o barco a bom porto, mas há uma tempestade de ventos contrários lançados pela comandante da armada que leva cada um para seu lado. Não tenho dúvidas de que todos naufragaremos numa sociedade sem valores, sem assiduidade, sem respeito e sem produtividade.
Vou dar um exemplo muito simples para que todos (mesmo a ministra) o entendam: se um dia eu chegasse a uma sala de aula e dissesse que "Maria" era um nome próprio; no dia seguinte, um adjectivo, depois, um verbo e, no final, reafirmasse que era um nome próprio, acham que algum aluno confiaria em mim?
Podemos também nós confiar neste Ministério e no que ele está a fazer ao nosso país?
Se confiam nesta ministra para gerir a educação dos vossos filhos, têm de confiar muito mais nos professores, que, apesar de não serem perfeitos, cometem menos erros.
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quarta-feira, 2 de maio de 2007
O Fim do Ensino Público
Eu falo do fim do “ensino público” e não do fim da “escola pública”, porque “escola pública” haverá durante mais alguns anos, até fecharem as portas de todas as escolas. Enquanto “ensino” implica que os alunos aprendam alguma coisa; “Escola” é o local onde as crianças passam o dia e são ocupadas ou entretidas pelos professores.
O fim do “ensino público” em Portugal foi decretado pela actual Ministra da (des)Educação e escrevo este artigo para que nunca ninguém se esqueça dos responsáveis pelo seu fim. As medidas que levaram à sua destruição foram:
1ª Decretar que todos os alunos que tivessem uma retenção, em qualquer ano da escolaridade obrigatória, nunca mais poderiam ficar retidos, mesmo que fossem para as aulas perturbar, entregassem os testes em branco, insultassem ou agredissem colegas e professores ou fossem suspensos. Esta situação provoca a revolta dos poucos alunos que ainda consideram que vale a pena tentar aprender alguma coisa, pois esforçam-se e vêem que os que os impedem de aprender têm o mesmo sucesso!
2ª Impedir que os professores marcassem trabalhos de casa para que os alunos não se habituem a trabalhar, pois, quando crescerem, correm o risco de irem para o desemprego e, se estiverem habituados a trabalhar, podem reclamar emprego e provocar uma revolução que expulse estes incompetentes do governo. Felizmente, há professores que se preocupam com a aprendizagem dos alunos e vão marcando trabalhos de casa, na esperança de que os pais não os denunciem à ministra.
3ª Impedir que os professores preparem as suas aulas e corrijam testes, pois só permite que estes trabalhem em casa sete horas por semana, o que não dá para preparar um terço das aulas, quanto mais para elaborar e corrigir testes. Assim, os professores não devem dar testes, caso contrário têm de trabalhar muitas horas na sua elaboração e na sua correcção, o que é muito mais do que o que a ministra permite. Se os professores não derem testes, já não terão problemas de consciência ao deixar passar os alunos que não querem aprender, tal como a ministra exige!
4ª Obrigar, mesmo contra a decisão dos tribunais, os professores a darem aulas de substituição gratuitas a alunos que não conhecem.
5ª Minar a autoridade dos professores, obrigando-os a terem aulas assistidas para serem avaliados em vez dos alunos!
6ª Roubar o tempo de serviço aos professores. Não se trata de um “congelamento”, como erradamente defende o governo, uma vez que esse tempo nunca voltará a ser contabilizado, mas de um roubo descarado com a conivência dos sindicatos e do Tribunal Constitucional.
7ª Dividir a carreira docente em duas categorias: a dos professores titulares, que serão nomeados pelo governo para serem os seus novos “bufos” e não eleitos pelos seus pares, e a de professores, que darão efectivamente as aulas e ganharão muito menos de metade do salário dos outros.
8ª Fechar as escolas do interior para que toda a população vá habitar nas grandes cidades.
9ª Não reduzir o número de alunos por turma, porque isso poderia fazer com que os alunos aprendessem alguma coisa, começassem a ter espírito crítico e se apercebessem de que este governo está a deixar as pessoas cada vez mais pobres, a desertificar o interior e a explorar quem trabalha.
10ª Insultar os professores, dizendo que eles não se preocupam com o sucesso dos seus alunos para esconder o seu desejo de que os alunos tenham transitem sem haver necessidade de aprenderem realmente.
11ª Impedir os professores de levar os alunos a visitas de estudo ou de participar em actividades, uma vez que eles têm de cumprir o número de aulas previstas. Caso o professor se preocupe com os alunos, pode levá-los à actividade, trabalhando todo o dia, responsabilizando-se por eles e, depois, terá de dar as aulas, noutro dia, gratuitamente, aos alunos que não foram. Com isto a Ministra quer impedir que os alunos saiam da escola para que não se apercebam da realidade que os envolve.
12ª Obrigar os professores a darem aulas, quer estejam doentes, quer lhes tenha morrido um familiar próximo, quer tenham sido pais, mesmo que a Constituição consagre que os trabalhadores têm direito a essas licenças, uma vez que a ministra só quer saber do número de aulas dadas.
13ª Os professores serem avaliados pelos pais dos alunos que não os conhecem e pelo número de discentes que abandonaram a escola. Era como se o governo fosse avaliado pelo número de emigrantes que deixam o país e fosse eleito pelos votos das pessoas que nunca viveram em Portugal.
14º Avaliar os professores pelas notas que dão. Coitados dos professores das piores turmas! (Por momentos esqueci-me de que todos os alunos têm de ter sucesso!)
Poderia enunciar muito mais medidas, mas penso que estas já chegam para mostrar o que esta Ministra já estragou. Daqui a uns anos vamos assistir ao fecho de todas as escolas públicas, pois os alunos vão perceber que podem ir a uma escola privada e comprar o curso, sem precisarem de frequentar as aulas nem de fazerem exames.
Não sei a que propósito, lembrei-me agora de que, na aldeia onde passei a minha infância, havia um “médico”, que tinha um consultório com muita clientela, mas veio a descobrir-se que ele apenas tinha a quarta classe. Claro que foi detido e as pessoas começaram a dizer que ele era um “doutor da mula russa” ou um “charlatão”. Interrogo-me, agora, do nome que se devia atribuir a alguém que se fazia passar por engenheiro, antes de o ser. De seguida, vou consultar o dicionário para verificar se “engenheiro da mula russa” ou “charlatão” também se podem utilizar nesse caso.
O fim do “ensino público” em Portugal foi decretado pela actual Ministra da (des)Educação e escrevo este artigo para que nunca ninguém se esqueça dos responsáveis pelo seu fim. As medidas que levaram à sua destruição foram:
1ª Decretar que todos os alunos que tivessem uma retenção, em qualquer ano da escolaridade obrigatória, nunca mais poderiam ficar retidos, mesmo que fossem para as aulas perturbar, entregassem os testes em branco, insultassem ou agredissem colegas e professores ou fossem suspensos. Esta situação provoca a revolta dos poucos alunos que ainda consideram que vale a pena tentar aprender alguma coisa, pois esforçam-se e vêem que os que os impedem de aprender têm o mesmo sucesso!

2ª Impedir que os professores marcassem trabalhos de casa para que os alunos não se habituem a trabalhar, pois, quando crescerem, correm o risco de irem para o desemprego e, se estiverem habituados a trabalhar, podem reclamar emprego e provocar uma revolução que expulse estes incompetentes do governo. Felizmente, há professores que se preocupam com a aprendizagem dos alunos e vão marcando trabalhos de casa, na esperança de que os pais não os denunciem à ministra.
3ª Impedir que os professores preparem as suas aulas e corrijam testes, pois só permite que estes trabalhem em casa sete horas por semana, o que não dá para preparar um terço das aulas, quanto mais para elaborar e corrigir testes. Assim, os professores não devem dar testes, caso contrário têm de trabalhar muitas horas na sua elaboração e na sua correcção, o que é muito mais do que o que a ministra permite. Se os professores não derem testes, já não terão problemas de consciência ao deixar passar os alunos que não querem aprender, tal como a ministra exige!
4ª Obrigar, mesmo contra a decisão dos tribunais, os professores a darem aulas de substituição gratuitas a alunos que não conhecem.
5ª Minar a autoridade dos professores, obrigando-os a terem aulas assistidas para serem avaliados em vez dos alunos!
6ª Roubar o tempo de serviço aos professores. Não se trata de um “congelamento”, como erradamente defende o governo, uma vez que esse tempo nunca voltará a ser contabilizado, mas de um roubo descarado com a conivência dos sindicatos e do Tribunal Constitucional.
7ª Dividir a carreira docente em duas categorias: a dos professores titulares, que serão nomeados pelo governo para serem os seus novos “bufos” e não eleitos pelos seus pares, e a de professores, que darão efectivamente as aulas e ganharão muito menos de metade do salário dos outros.
8ª Fechar as escolas do interior para que toda a população vá habitar nas grandes cidades.
9ª Não reduzir o número de alunos por turma, porque isso poderia fazer com que os alunos aprendessem alguma coisa, começassem a ter espírito crítico e se apercebessem de que este governo está a deixar as pessoas cada vez mais pobres, a desertificar o interior e a explorar quem trabalha.
10ª Insultar os professores, dizendo que eles não se preocupam com o sucesso dos seus alunos para esconder o seu desejo de que os alunos tenham transitem sem haver necessidade de aprenderem realmente.
11ª Impedir os professores de levar os alunos a visitas de estudo ou de participar em actividades, uma vez que eles têm de cumprir o número de aulas previstas. Caso o professor se preocupe com os alunos, pode levá-los à actividade, trabalhando todo o dia, responsabilizando-se por eles e, depois, terá de dar as aulas, noutro dia, gratuitamente, aos alunos que não foram. Com isto a Ministra quer impedir que os alunos saiam da escola para que não se apercebam da realidade que os envolve.
12ª Obrigar os professores a darem aulas, quer estejam doentes, quer lhes tenha morrido um familiar próximo, quer tenham sido pais, mesmo que a Constituição consagre que os trabalhadores têm direito a essas licenças, uma vez que a ministra só quer saber do número de aulas dadas.
13ª Os professores serem avaliados pelos pais dos alunos que não os conhecem e pelo número de discentes que abandonaram a escola. Era como se o governo fosse avaliado pelo número de emigrantes que deixam o país e fosse eleito pelos votos das pessoas que nunca viveram em Portugal.
14º Avaliar os professores pelas notas que dão. Coitados dos professores das piores turmas! (Por momentos esqueci-me de que todos os alunos têm de ter sucesso!)
Poderia enunciar muito mais medidas, mas penso que estas já chegam para mostrar o que esta Ministra já estragou. Daqui a uns anos vamos assistir ao fecho de todas as escolas públicas, pois os alunos vão perceber que podem ir a uma escola privada e comprar o curso, sem precisarem de frequentar as aulas nem de fazerem exames.
Não sei a que propósito, lembrei-me agora de que, na aldeia onde passei a minha infância, havia um “médico”, que tinha um consultório com muita clientela, mas veio a descobrir-se que ele apenas tinha a quarta classe. Claro que foi detido e as pessoas começaram a dizer que ele era um “doutor da mula russa” ou um “charlatão”. Interrogo-me, agora, do nome que se devia atribuir a alguém que se fazia passar por engenheiro, antes de o ser. De seguida, vou consultar o dicionário para verificar se “engenheiro da mula russa” ou “charlatão” também se podem utilizar nesse caso.
domingo, 25 de março de 2007
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